Crise do suco de laranja: baixos estoques, seca severa e avanço das doenças ameaçam o futuro da laranja no Brasil

A produção de suco de laranja no Brasil enfrenta uma grave crise devido à queda de estoques, mudanças climáticas severas e o avanço de doenças como o greening, comprometendo a oferta e elevando os preços.

Caminhão carregado com laranjas após serem colhidas no campo de uma fazenda no estado de São Paulo
Caminhão carregado com laranjas após serem colhidas no campo de uma fazenda no estado de São Paulo

A citricultura brasileira enfrenta um momento crítico em 2024, com a combinação de problemas climáticos e doenças ameaçando a produção de laranja e, consequentemente, os estoques de suco. Esses fatores têm levado a uma das piores safras em décadas, pressionando a indústria e os consumidores.

Estoques de suco de laranja em níveis críticos

Os estoques de suco de laranja chegaram a níveis alarmantes. De acordo com a Associação nacional de exportadores de sucos cítricos (CitrusBR), a quantidade de suco armazenada, que tradicionalmente dura cerca de quatro meses fora da época de colheita, agora está tecnicamente zerada.

O último levantamento apontou que, em dezembro de 2023, havia menos de 464 mil toneladas em estoque, uma das menores quantidades já registradas.

Esse cenário reflete o impacto direto da queda na produção e a forte demanda internacional pelo suco brasileiro, principalmente da Europa e dos Estados Unidos.

Estimativa de safra: a pior em décadas

A estimativa para a safra de 2024 aponta para um período extremamente desafiador para a citricultura brasileira. A previsão é de uma produção de cerca de 232 milhões de caixas de 40,8 kg, representando uma das menores colheitas nas últimas décadas. Esse volume é significativamente inferior ao observado na safra anterior, que alcançou 306 milhões de caixas, evidenciando uma redução de aproximadamente 24%.

Histórico Safra – Cinturão Citrícola de São Paulo e Triângulo Mineiro. Fonte: CitrusBR
Histórico Safra – Cinturão Citrícola de São Paulo e Triângulo Mineiro. Fonte: CitrusBR

Essa queda acentuada é atribuída a uma combinação de fatores climáticos, que afetaram diretamente o desenvolvimento das laranjeiras. As ondas de calor ocorridas durante a fase de florada das árvores comprometeram o processo natural de formação dos frutos, resultando em uma colheita menor e de qualidade inferior. Esse período é vital para a definição do volume e do tamanho dos frutos que serão colhidos, e o impacto do calor intenso foi imediato e devastador.

Além disso, o déficit hídrico desempenhou um papel crucial no agravamento dessa situação. As chuvas ficaram abaixo do esperado, e os sistemas de irrigação não conseguiram suprir a demanda hídrica das plantações, gerando estresse nas árvores. Esse estresse compromete o equilíbrio hormonal das plantas, reduzindo o rendimento e a capacidade de produção das laranjas. Em suma, as condições climáticas desfavoráveis tiveram um impacto profundo e negativo na safra, tornando 2024 um ano de desafios sem precedentes para o setor de citricultura no Brasil.

O papel do greening no colapso da produção

Outro fator preocupante é o avanço do greening, uma doença bacteriana transmitida pelo inseto Diaphorina citri. A doença, que não tem cura, já infectou cerca de 77 milhões de laranjeiras, provocando a queda prematura dos frutos e a diminuição da produtividade. O aumento da população do inseto vetor é impulsionado pelas condições climáticas, especialmente com o clima quente e úmido do início da primavera.

infecção grave da doença do greening dos citros
infecção grave da doença do greening dos citros

O greening é uma das maiores ameaças à citricultura mundial e, no Brasil, sua incidência aumentou 54% entre 2022 e 2023. O manejo e o controle da doença são caros e complexos, e os produtores têm enfrentado enormes dificuldades para conter a disseminação do patógeno.

A crise enfrentada pela citricultura brasileira não deve ser solucionada rapidamente. Especialistas estimam que serão necessárias ao menos três safras consecutivas para que os estoques de suco de laranja se recuperem e voltem aos níveis normais. Isso significa que o mercado pode continuar a enfrentar pressão nos preços, tanto para os consumidores quanto para a indústria, nos próximos anos.

Psílídeo asiático dos citros, Diaphorina citri
Psílídeo asiático dos citros, Diaphorina citri

Para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e do greening, será fundamental investir em novas tecnologias e práticas de manejo mais eficientes, além de políticas públicas voltadas à adaptação climática.

Com o cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas, a citricultura precisará se adaptar a novas realidades, buscando alternativas para manter sua competitividade e garantir o abastecimento do mercado.

A safra de laranja de 2024 revela um momento de grandes desafios para o Brasil, o maior produtor mundial de suco de laranja. A combinação de estoques em queda, safra reduzida e avanço do greening impõe obstáculos que exigem uma resposta rápida e coordenada. Somente com inovação, controle de doenças e manejo climático eficiente será possível contornar essa crise e garantir a sustentabilidade do setor no longo prazo.