"Rolling Stones" em Titã: o vento na lua de Saturno pode mover rochas, uma chave para encontrar vida
Descobertas recentes oferecem informações sobre a lua de Saturno, onde o vento, a baixa gravidade e uma paisagem congelada se combinam para criar dunas desérticas e planícies rochosas.

A cerca de 1.290 milhões de quilômetros do planeta Terra fica Titã, a maior lua de Saturno, o único satélite natural conhecido com uma atmosfera densa e o único corpo celeste, além da Terra, onde evidências claras de corpos líquidos estáveis (rios de metano) foram encontradas na superfície.
Titã tem um diâmetro 50% maior que o da nossa Lua e sua superfície é moldada pelo vento e pela chuva de hidrocarbonetos. Observações feitas pela sonda Cassini em 2004 sugerem que a atmosfera de Titã gira muito mais rapidamente do que sua superfície, tem nuvens compostas de metano, etano e outros compostos orgânicos simples, e uma densa névoa de cor laranja que cobre toda a lua.

Um novo estudo do Instituto SETI sugere que os ventos em Titã podem rolar cascalho ou mesmo pequenas pedras em sua superfície. Essas descobertas oferecem novas informações sobre a lua de Saturno, onde ventos, baixa gravidade e uma paisagem congelada se combinam para criar dunas desérticas e planícies rochosas.
A paisagem de Titã é única
“Imagens de radar da missão Cassini revelam veios alongados na superfície de Titã que podem se estender por centenas de quilômetros”, disse a Dra. Lori Fenton, do SETI. "Nossos colegas propuseram que esses são depósitos de gelo de água soprados pelo vento, erodidos de colinas próximas. Propomos que o gelo de água nessas veias pode ser formado de pedras sopradas pelo vento", disse ela.

Nas imagens de radar, faixas brilhantes emanam do terreno acidentado de Titã e se estendem para nordeste, alinhando-se com padrões de vento conhecidos. Essas faixas são candidatas a campos de rochas laminadas pelo vento, compostas de gelo de água.
A paisagem de Titã é única em comparação com a Terra e Marte. Na Terra, o vento pode mover grãos de areia, moldando desertos ao longo do tempo. Em Marte, ele pode esculpir paisagens e formar tempestades de poeira. Três fatores diferenciam Titã:
- A baixa gravidade (apenas 14% da da Terra) facilita a movimentação até de objetos grandes.
- Uma atmosfera densa e espessa (quatro vezes mais densa que a da Terra) facilita o impacto do vento.
- As rochas de gelo de água de baixa densidade (⅓ da densidade das rochas de silicato terrestres) são relativamente fáceis de mover pelo vento.
Os pesquisadores realizaram uma análise matemática, limitada pela engenharia e pela teoria aerodinâmica, para entender o impacto desses fatores. O estudo sugere que o vento de Titã pode carregar rochas de até meio metro de diâmetro, algo não observado em outros planetas ou luas.
Cientistas acreditam que Titã é um lugar interessante para procurar vida fora da Terra. Tem líquido em sua superfície e pode conter um oceano subterrâneo de água líquida. Além disso, compostos orgânicos foram detectados em sua atmosfera e superfície. Essas condições fazem de Titã um lugar fascinante para investigar sua habitabilidade e a possibilidade de vida em outras partes do nosso sistema solar.
Missão Dragonfly da NASA para Titã em 2028
Dragonfly é uma missão da NASA para a lua Titã, com lançamento previsto para 2028. Ela realizará pequenos sobrevoos na superfície de Titã para explorar a composição química e a habitabilidade de vários locais. As descobertas deste estudo podem ajudar a determinar quais locais o Dragonfly deve explorar e o que ele deve estudar.
“Nosso trabalho mostra que em Titã, não apenas os rios, mas também o vento podem transportar rochas das terras altas para as planícies baixas, que missões como a Dragonfly podem acessar facilmente”, disse John Marshall, do SETI. Essas pedras foram erodidas do leito rochoso gelado que contém informações sobre o passado geológico, e talvez biológico, de Titã.
O vento facilita o acesso a essas pedras, permitindo que os planejadores da missão determinem qual conjunto de colinas explorar em seguida. Uma boa analogia na Terra seria procurar pepitas de ouro em rios e córregos para descobrir qual montanha pode esconder um veio principal.
Referências da notícia
Rolling stones on Titan. 20 de fevereiro, 2025. John R. Marshall e Lori K. Fenton.
Can Wind Move Rocks on Saturn’s Moon?. 20 de março, 2025. SETI Institute.